HIV E RACISMO: O estigma do vírus e as opressões históricas da população negra


Por Carlos Henrique de Oliveira

A epidemia de HIV-aids, mais do que apenas um problema de saúde pública e/ou um vírus transmissível sexualmente, precisa ser entendida como um recorte da realidade social. O HIV, mais do que nunca, necessita ser reconhecido enquanto um vírus transversal a todos os aspectos dos sujeitos e da sociedade. Não há mais a possibilidade de enfrentar a epidemia sem reconhecer as opressões historicamente construídas na sociedade, as desigualdades e iniquidades sociais, reconhecendo aquilo que chamamos agora de vulnerabilidades.
Não há como homogeneizar uma epidemia. Não podemos mais negligenciar os recortes de gênero, raça e classe, pois são as realidades sociais que vão ditar quais as populações que mais adoecem, as que menos têm acesso à informação, ao bem-estar e a serviços públicos de qualidade.
Nesse sentido, é de extrema urgência reconhecer e traçar políticas públicas assertivas para a maior suscetibilidade da população negra à epidemia de HIV-aids no Brasil, reconhecendo dentro desta os grupos de LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, transgêneros e travestis) e de HSH (homens que fazem sexo com homens) sem o machismo e a heteronormatividade que sempre rondou o imaginário do que é ser negra e negro no país.
As mulheres negras são as que figuram no topo da mortalidade por aids (morrem três vezes mais que mulheres brancas) e não por acaso estão na base da pirâmide social, majoritariamente no subemprego e na pobreza. Além disso, a população negra em geral está mais suscetível a desenvolver a aids e figura no topo da taxa de mortalidade. “Hoje, o risco de uma pessoa preta, infectada pelo HIV, morrer por aids é 2,4 vezes maior do que o de uma pessoa branca”, de acordo com Sara Romero, da Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo, no último seminário de raça/cor do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo. “Também, temos mais mulheres pardas sem acesso ou adesão ao tratamento do que brancas”.
Com relação ao crescimento de novos casos de HIV, a incidência tem se mostrado maior na juventude, sobretudo a juventude negra, a de HSH (homens que fazem sexo com homens), e GBTTT (gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros). E agora, com o aumento do discurso conservador, essas populações sofrem ainda mais discriminação e estigma, que, aliadas ao racismo institucional, dificultam o acesso ao tratamento do HIV e até mesmo a políticas mais eficazes de prevenção.
Falar de racismo e HIV não é somente reconhecer o estigma ainda trazido pelo vírus e/ou os casos explícitos de ofensas racistas. É reconhecer que o racismo está implícito no nosso sistema de sociedade; que mantém em pé, no Brasil, o sistema de exploração do homem pelo homem e ajuda a manter a desigualdade social abissal do país. É reconhecer que o estigma do HIV espelha o conservadorismo e o tabu sobre a sexualidade numa sociedade machista.
Isso posto, torna-se urgente reconhecer que a falta de saúde pública e a ameaça de se diminuir o SUS também são atos de RACISMO. Que o fato de o Brasil figurar como um dos países que mais têm assassinatos de negros, ocasionados pela Polícia Militar, também é uma declaração do quanto nossa sociedade ainda é, sim, racista. E que juntando a educação pública de qualidade que é negada ao povo pobre e negro, a saúde pública deficitária, que leva essas populações a adoecerem e morrerem mais, e a violência institucional, policial e urbana, nós temos um quadro de genocídio da população negra e pobre no país e uma criminalização crescente da pobreza, da população negra e das LGBTs.
Infelizmente, mesmo diante de tantos fatos, ainda se tenta relativizar e minimizar o recorte racial e de gênero na epidemia de HIV/aids, tentando deslegitimar os discursos da militância negra para não se vincular a falta de acesso à saúde pública ao genocídio da população negra e pobre. Ou, muitas vezes, num discurso biomédico, não se quer reconhecer os aspectos sociais da doença e das pessoas vivendo com HIV-aids. E, a partir disso, começa a se desenhar aquilo que eu chamo de “processo de anonimato e silenciamento da pessoa negra que vive com HIV”.
Além de carregar o preconceito trazido pelo HIV – que ainda impera devido à desinformação de grande parte da população – as negras e os negros soropositivos são silenciados. Ao falarem de racismo, são acusados de serem vitimistas e exagerados, numa tentativa de transferir algo de foro público e social para o foro privado e individual, para não ter que se debruçar em soluções efetivas contra o estigma.
Não é de se espantar, portanto, que seja essa a população mais atingida pela mortalidade de aids, já que até mesmo suas pautas mais básicas são tidas como ilegítimas. O que é contraditório, no entanto, é isso ainda ocorrer numa época em que o tratamento do HIV já está tão avançado e já se fala em possibilidade de se descobrir a cura num médio ou longo prazo.
Para além disso, também temos que reconhecer que o SUS e o próprio Departamento de Aids vem se sucateando e perdendo investimentos; tanto que o Brasil já não é mais considerado a referência mundial que já foi no tratamento da doença.
Diante de todas essas considerações, temos que reconhecer que só conseguiremos enfrentar o HIV quando enfrentarmos o racismo e todas as opressões e explorações de nossa sociedade. Quando colocarmos a pauta dos direitos humanos, da erradicação do estigma e da discriminação na dianteira da agenda das políticas voltadas ao HIV-aids.
Avançaremos quando não tivermos autoridades públicas falando em diminuir o acesso universal do SUS usando a crise econômica e o orçamento como desculpa, aprovando emendas à constituição como a EC 55 – antiga PEC 55, que fará a saúde perder o investimento de 743 bilhões de reais – sem, no entanto, discutir ações efetivas para a mudança fiscal e econômica no país, como a auditoria da dívida pública ou a reforma tributária com a taxação sobre grandes fortunas.
Não vamos avançar na matéria HIV-aids enquanto não falarmos de racismo, gênero e sexualidade nas escolas públicas (onde estão a maioria das crianças e jovens negras e negros), enquanto nos omitirmos à falta de acesso à educação, saúde e mercado de trabalho da população negra. Não avançaremos sem lutar contra os assassinatos em massa da juventude negra.
Há a necessidade de se refletir muito sobre as questões raciais e sociais no Brasil. Além do exemplo dos quilombolas de Palmares, de resistir e não se curvar aos senhores de engenho, precisamos seguir o exemplo de Oxum: assim como ela, não temos que pedir, devemos exigir do rei todo o ouro que merecemos, até sermos, tal qual ela, donos de todo o ouro e de toda a riqueza. Não merecemos nada menos do que uma sociedade justa, equânime e igualitária.
FONTE: http://novaorganizacaosocialista.com/2017/02/17/hiv-e-racismo-o-estigma-do-virus-e-as-opressoes-historicas-da-populacao-negra/

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